sábado, 31 de dezembro de 2005

É Tábua Mas Não É Pau

os topónimos com base em "Tábua" são muito frequentes na Galiza e em Portugal, e também aparecem no Brasil. podia pensar-se que tivessem origem latina, mas por essa safra linguística não vamos muito longe nem muito acertadamente. há quem diga, para dar que fazer ao latim, que estes topónimos teriam origem em antigas pontes de pau para atravessar o rio - onde o houvesse. porém, se assim fosse, diz o costume que a terra se chamaria "Ponte", "Pontão", talvez até "Barca", mas não "Tábua". e que todas as "Tábuas" e seus derivados teriam que ter um rio, o que não estou muito certo de ser verdade. quando cá chegaram os romanos já havia muita gente por aqui e não consta que as terras estivessem à espera que os romanos lhes botassem nome, especialmente se o já tinham.
por isso, vou pela hipótese de "Tábua" e seus derivados já existirem antes do latim e terem o significado de "Chão", Chã", "Terra Chã", terreno plano ou planáltico - o que parece condizer com uma boa dúzia desses topónimos que eu conheço.
e como a toponímia é o lugar geométrico de todas as coincidências linguísticas, pode até suceder que tábua signifique mesa: plano alto, pequeno planalto (Cf. "Meseta", Es.)
não visitei pessoalmente todas as terras com topónimos como estes que se seguem, mas se o que eu digo for verdade haverão que ter em comum o serem planas ou quase planas, em contraste com a orografia envolvente:

Taboaças ou Taboazas (Gz.)
Taboada (Gz.)
Taboadela (Gz.)
Taboadelo (Gz. e Pt.)
Taboado (Gz.)
Taboao da Serra (Br.) (obrigado, João Lopes Ribeiro!)
Táboas (Gz.)
Taboeira (Gz. e Pt.)
Tabosa (?)
Tábua
Tabuaça
Tabuaças


Tabuaço (foto)


Tabuadelo
Tabuado
Tabual
Tabuão (Br.)
Tábuas
Tabuínho
Tabuladelo
Tabulado
Tabulados
Tabuleiro (Pt. e Br.)
Tabulosa


nota: a grafia tabu... em lugar de tabo... não está autorizada pelos antecedentes linguísticos destes topónimos




sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Britos, Briteiros e Bretonhas

naquele tempo em que o Império Romano rompia pelas costuras, os povos Escoto e Picto da Escócia resolveram aproveitar-se do vazio da Pax e passar a dominar toda a Britannia. os Bretões ou Britos, vendo a casa a arder por dentro, chamaram em seu auxílio a gente de fora. como é bom de ver, a ajuda de fora é mais fácil de chamar que de aturar. em consequência desse acto pouco reflectido, a Britannia foi infestada de gente que nunca lá devia ter entrado: os Anglos, Frísios, Jutos e Saxões, que bem souberam valer o preço dessa ajuda. e os Britos, não tendo remédio melhor, fizeram-se ao mar, para o sul, às Gálias e Galécias, em busca de sossego e segurança. onde assentaram deixaram na toponímia a sua marca étnica, afinal a mesma que predominava nestas regiões celtas irmãs do Continente. e trouxeram a gaita com eles. onde haja Bretagne (Fr.), Bretanha (Pt.), Bretonha (Gz.), Briteiros, Britiande (?), Britelo, Brito, é uma terra-irmã, armórica, galega ou portuguesa, que eles adoptaram como nova pátria.
...e mais ano menos ano, chegaram por essa hora os Suevos, que tamém abancaram por aqui - chamando a si o governo da Xunta da Grande Galiza, com a bênção dos Godos da Meseta.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Topónimos Terminados em "ô"

são topónimos diminutivos masculinos de outros topónimos. provêm do diminutivo latino tardio em -olo. em trás-os-montes há formas arcaicas em -oulo / -uolo, como "Palaçoulo"/"Palaçuolo" (Mir.), em lugar de "Paçô".
são menos frequentes do que os topónimos terminados em "ó".

exemplos:

Avô - do grupo "Ave"
Barrô (pronunc. "Bàrrô")

Gestaçô
Mosteirô
Paçô (pronunc. "Pàçô") (diminut. de "Paço", Paaço, Palácio)
Sequeirô
Travassô
Urrô



segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Là Sù, Là Giù

"Jusão" e "Jusã" provêm do lat. tardio e significam "o/a de baixo". "Susão", "Susana" e "Susã" vêm do lat. da mesma época e significam "o/a de cima". estão muito representados na Galiza e em Portugal, com variantes.

podemos apontar aqui os seguintes topónimos:

Aldeia de Juso (o mesmo que Aldeia de Baixo)
Arcas de Susãs (o mesmo que Arcas de Cima. Arcas=Antas?)
Outeiro Jusão (o mesmo que Outeiro de Baixo)
Paço de Jus (o mesmo que Paço de Baixo. Paço=Palácio)
Pereira Jusã (o mesmo que Pereira de Baixo)
Portela de Jusão (o mesmo que Portela de Baixo)
Portela Susã (o mesmo que Portela de Cima)
Susá (Gz.)
Susã
Susana (Gz. e Pt.)
Susao (Gz.)
Susão
Susaus (Gz.)
Viladesuso ou Vila de Suso (Gz.)
Vila Jusã (o mesmo que Vila de Baixo ou Quinta de Baixo)
Vilasusá ou Vila Susá (Gal.) (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)
Vilasusán (Gz.) ou Vila Susan ou Vila Susã (o mesmo que Vila de Cima ou Quinta de Cima)



Mais Terras Planas

além de "Chã", "Chá" (Gz.), "Chão", "Chelo", "Chenlo" (Gz.) e "Chelinho", encontramos por aí (Gz. e Pt.) topónimos que realçam o caráter plano de uma povoação ou de um terreno em contraste com a orografia envolvente. É o caso dos derivados femininos de planarium, planaria, como "Chaira" (Gz. e Pt.), "Cheira" (Gz. e Pt.) e "Cheirinha". na região de Miranda do Douro surgem topónimos mais arcaicos, como "Chana", "Chanas" e "Chaneira".
"Chelas", feminino plural de "Chelo", poderá significar "pequenas chãs" dispostas ao longo de um vale, como é o caso da "Cheira" e do "Chelo", de Penacova.
há que dizer aqui que o que diferencia "Chão" de "Chelo" e de "Chelinho", "Chã" de "Chelas" e "Cheira" de "Cheirinha" não é a dimensão absoluta do terreno, mas sim o termo de comparação utilizado pela população que lhe deu o nome.

poderemos , então, elencar uma série de topónimos que se referem a um terreno plano, independentemente da sua dimensão:

A Chaira das Corças ou A Chaira das Corzas (Gz.)
Alter do Chão
As Chairas (Gz.)
Campos de Cheira
Casais das Cheiras
Casal da Cheira
Chã da Ilha
Chã da Lama
Chã do Boi
Chaela - informação de Carlos Durão
Chaila - informação de Carlos Durão
Chainça (Pt. e Gz.) (ver comentº)
Chainza (Gz.) o mesmo que Chainça
Chaira (Gz. e Pt.)
Chana (Mir.) o mesmo que "Chã"
Chanas (Mir.) o mesmo que "Chãs"
Chandrexa (Gz.) (?)

Chandrexa de Queixa (Gz.) (?) - segundo o meu amigo Carlos Durão, Chandrexa pode significar Chã de Eireja ou Ereija, ou Igreja. seria, pois, "chã da igreja".

Chaneira (Mir.) o mesmo que "Cheira"
Chanos (Mir.) o mesmo que "Chãos"
Chão da Capela
Chão d'Ave
Chão da Feira
Chão da Vã
Chão da Velha
Chão de Casados
Chão de Couce
Chão de Espinho
Chão do Ancinho ("Ancinho" é hidrónimo?)
Chão do Bispo
Chão dos Santos
Chãs d'Égua ("Égua" é hidrónimo?)
Chãs de Tavares
Chãs de Viseu
Chãs Grandes
Chaveã ou Chavean (Gz.) (?)
Cheela - informação de Carlos Durão
Cheira (Gz. e Pt.)
Cheiras
Cheirinha
Cheirinho
Cheirinhos
Chelas
Chelo (Gz. e Pt.)
Chenlo (Gz)
Fonte da Cheira
Foro da Cheira
Maçal do Chão
O Chao (Gz.)
Outeiro da Cheira
Quinta da Cheira
Rebordochão
rua da Fonte da Cheira
Terra Cha (Gz.)
Vila Chã
Vila Chã da Beira
Vila Chã de Barceosa
Vila Chã de Sá




quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

O Topónimo Chelo

presente na toponímia galega e portuguesa, é o diminutivo planellum de planum: "plano", "chão". é, pois, um topónimo diminutivo de um outro topónimo, "Chão".
encontra-se onde um pequeno plano, suficiente para albergar um povoado, contrasta com um terreno irregular, de montes e vales. existe a forma "Chelo", "Chenlo" (Gal.) e o duplo diminutivo "Chelinho" (pronunc. "Chèlo", "Chèlinho"). experimentem passar por este interessante lugar , com o cuidado de não tropeçar nas vírgulas nem na ortografia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Esta Quadra de Natal, Essa Festa do Sol

no hemisfério norte, e quanto mais a norte mais assim, esta época do ano é fria, as noites são grandes, o sol é fraco. a natureza está adormecida. cada dia que passa a noite é mais comprida e o dia quase nada. o sol está doente. parece que em breve sucumbirá e tudo vai ficar escuro e frio. a neve estende o seu manto branco por toda a terra, ferindo a vista com seu brilho penetrante, imenso, gelado. a morte deve ser assim, gelada, imensa, sem ontem nem hoje.
mas eis que tudo vai mudar. parece que a noite começa a encolher, dia para dia uns minutos, meia hora, uma hora inteira. o sol invencível já não morre, ganha força de novo, renasce.
vamos festejar, porque este ano, afinal, é como o ano passado e o ano anterior e ainda o outro que se foi. a natureza precisa de passar por aqui, como precisa da primavera, do verão e do outono. aqui, no hemisfério norte. porque a terra não tem uma verdade igual para todos. do pólo norte ao sul, do equador aos trópicos, cada terra tem sua verdade e cada verdade seu ciclo.
o natal é a festa do natalis solis invictus - o nascimento do sol invencido, no dizer dos romanos. assim também a cidade de Natal, quente, ensolarada, passeando na praia e a tremer de insolação na noite de natal: é "a cidade do sol"

sábado, 17 de dezembro de 2005

"O Deus da Fonte Pelo Qual Se Jura"

a crer na tradução arrevesada que J. Leite de Vasconcelos fez da inscrição da Fonte do Ídolo, em Braga, Tongoe Nabiago seria um deus: "o deus da fonte pelo qual se jura". e, sendo um deus, o seu nome em língua celta teria aquele significado abstruso. alá é grande: não há deuses, divindades ou manifestações divinas com semelhantes nomes. e nem é certo que Tongoe Nabiago seja o nome de um deus.
vou por outro lado.
o monumento mandado fazer por Celico Fronto Abimogido Arcobrigense, na fonte da Rua do Raio, naquela época de celtas sob domínio romano, parece a representação de um baptismo ritual, que só não se refere a João Batista e ao baptismo de Cristo porque nenhum deles tinha ainda pensado vir ao mundo. de resto, nada lá falta: a água, a pomba, o delta, aquele que baptiza, aquele que é baptizado, eu sei lá.
que sentido faz isto em Braga? Braga é a cidade do "S. João", da festa do solstício de junho, a festa das fontes, das juras de amor. uma festa tão antiga como a chuva, o sol, o vento, a noite e o dia. uma festa que corre paralela ao regato que nasce na Fonte do Ídolo e se dirige para o Rio Este, um pouco mais abaixo.
então, o que poderá significar Tongoe Nabiago? o raciocínio linguístico de Leite de Vasconcelos está certo. Tongoe está relacionado com "jurar", e Nabia-go está relacionado com "fonte". só não há nada que diga que estejam relacionados com um deus.
não é normal que as inscrições nas fontes se refiram à própria fonte? fonte do amial, fonte de santo antónio, fonte da cheira, fonte da pulga, fonte disto, fonte daquilo? teremos, então, tongoe nabiago: fonte das juras? (ao senhor da) fonte das juras? o mesmo é dizer: fonte de s. joão? (ao) s. joão da fonte? claro que ainda não havia S. João, mas o culto associado ao nome de S. João existe muito antes, antes mesmo de Celico Fronto ter mandado fazer, em cumprimento de um voto, aquele arranjo na fonte que já era santa. culto tão profundo e duradouro que os bisnetos Celico e Lucio daquele ilustre celta se sentiram obrigados a mandar restaurar o monumento. tão profundo e duradouro que cavalgando a fonte e o regato pagãos chegou até hoje em cada 24 de junho.
embora transparente, é apenas uma hipótese...
...mas tem a vantagem de fazer sentido e de trazer de novo a fonte à vida de uma cidade que não sabe muito bem o que fazer com ela.
para mim, que a visitei vezes sem conto, a Fonte do Ídolo está na origem do São João de Braga, mesmo que os linguistas traduzam de outra forma o que lá está escrito.
e merece a distinção que lhe compete, já que faz parte da história e do espírito mais profundo da cidade, por muito que a queiram esconder e ocultar.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Maceió

revendo os topónimos terminados em "ó", ocorreu-me o nome da capital do Estado de Alagoas.
Maceió é um topónimo nativo, mas não será tupi-guarani. o seu significado andará à volta de "terreno alagadiço", "lagoas", "charcas". afinal de contas, o mesmo que "Alagoas" pretende significar. os portugueses traduziram, ou cada povo por si deu um nome igual à mesma realidade?
se quer saber um pouco mais de Maceió, e até fazer uma visita um dia, vá por aqui. tem tudo o que precisa de saber. mas cuidado com as decifrações inverosímeis. tradução arrevesada é tradução rejeitada

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Topónimo Terminado em "ó": menino ou menina?

os topónimos que se seguem são diminutivos femininos de outros topónimos conhecidos. têm o diminutivo latino tardio em -ola. na Galiza costumavam terminar em "óo", mas a norma reintegracionista recomenda a forma portuguesa em "ó". alguns são duplos diminutivos, como Assilhó (Osselola: Ossa, Ossela, Osselola). o diminutivo -ola mantém-se íntegro em alguns topónimos, como Sarrazola/Serrazola, Mariola

vejamos:

Alijó (de A Lixa?) ver Lijó

Anissó (já foi chamada Nizola, pelo que deverá ser o diminut. de "Niza": A Nizola. e deveria, pois, escrever-se "Aniçó")

Arranhó (A Ranha, A Ranhola)

Assilhó (Ossa, Ossela, Osselola) - quem tenha bom ouvido há de reparar que as pessoas da terra dizem "eu vou "à" Assilhó).

Bilhó
Bouçó
Bruçó
Campanhó
Celeiró (também existe o feminino plural Celeirós)
Cerdeiró
Coimbró - diminut. de
Cujó
Eiró
Feijó
Ferreiró
Figueiró (Figueira, Figueirola. é o mesmo que Figueiroa)
Grijó (Ecclesia, Ecclesiola: igreja, igrejinha)
Irijó (o mesmo que Grijó)
Labrujó (é um hidrónimo. diminutivo de Labruja. os rios eram femininos)
Leijó
Lijó (o mesmo que Alijó. tem uma forma anterior: Alyjoo)
Linhó (Linea, Lineola)
Moreiró (Moreira, Moreirola)
Nogueiró
Pardilhó (diminut. de Pardelha)
Pereiró
Pó (?)
Ranhó (diminut. de Ranha. ver Arranhó)
Requeijó (diminut. de Requeija ou Requeixa)
Ribó (Gz.) - (diminut. de Riba)
Sicó (?)
Sobreiró (diminut. de Sobreira)
Teixeiró
Tó (?)

Touguinhó - este topónimo é um duplo diminutivo de "Touga". curiosamente, e pertinho uns dos outros, existem as três formas: "Touga", "Touguinha" (diminutivo de Touga) e "Touguinhó" (diminutivo de Touguinha).

Vinhó

sendo todos esses diminutivos femininos, será muito pouco correto dizer ou escrever, como por aí se ouve e lê, "o Linhó", "o Feijó", "o Grijó", e assim por diante.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Os Santos Têm Escolha

Na toponímia é muito frequente encontrar santos, alguns bem estranhos para os nossos hábitos religiosos. é mesmo difícil dizer se é o santo que dá o nome à terra, ou se é a terra que dá o nome ao santo. seja como for, o nome do santo não é indiferente e em certos casos é mesmo possível prever que santo tem a terra ou que tipo de terra tem o santo. Santa Iria só aparece em certos sítios, São João noutros, São Mamede noutros ainda, São Pedro ainda noutros, enfim, a cada um seu brasão e morgadio.

Vamos então descobrir:


Sanfins - ver "São Félix" e "S. Fiz". exº: "Sanfins do Douro"

Santa Eulália, Santa Olaia, Santalla ou Santalha (Gal.), Santa Olalla ou Olalha (Gal.), Santa Ovaia, Santa Vaia:
há pelo menos a Eulália de Barcelona, a de Braga e a de Mérida (três polos da Península Ibérica) embora os três cultos juntos não sejam de grande vulto. estas santas, pelo que era crime de serem cristãs, foram decapitadas. por isso, alguns pequenos "montes, cabeços ou cabeças santas" pagãs adoptaram o seu nome em honra da cabeça perdida. a lenda não inclui o brote de uma fonte, ao contrário de Santa Quitéria

Santa Iria:
esta santa não goza de grande culto popular, mas é frequente encontrá-la na toponímia. associada à ideia de cidade, é um topónimo de origem euskera ou proto-euskera, como Irun, Iruña. a freguesia de Tomar onde se situava o primeiro assentamento populacional chama-se Santa Iria. é provável que este termo esteja presente também em Santarém e em Leiria e que a santidade (sacralidade) provenha do lugar. a antiga Iria Flávia prescindia da santidade, apesar de estar intimamente ligada à lenda de Santiago

Santa Maria:
está onde estava Ísis e, antes dela, a senhora do Leite. é um avatar da Mãe que nutre, a Mãe Natureza. é mais a Nossa Mãe do que propriamente a Mãe de Deus. um excelente exemplo é a Igreja de Santa Maria, em Braga - a famosa Sé, em cujo exterior da cabeceira figura a Senhora do Leite (e a Rua da Senhora do Leite) e em cujas escavações arqueológicas se encontrou a imagem de Ísis

Santa Quitéria (Port. e Bras.):
é uma cristianização muito superficial do culto dos montes, cabeças e cabeços.
a "santa da cabeça" foi decapitada por seu pai, que odiava mais os cristãos do que amaria a filha. está aqui no lugar da "cabeça santa" pagã (o monte, cabeço ou cabeça). para satisfazer o mito ou a lenda da santa, deverá existir uma fonte no local. o hábito de associar a santa a este tipo de lugares passou ao Brasil e à América Latina em geral

Santo Amaro:
a sua festa é a 15 de janeiro. é ou era o padroeiro dos galegos migrados em Portugal. tem sido referenciado como um avatar de uma divindade do panteão celta. há topónimos que dispensam o "santo", ficando apenas "Amaro" ou os seus diminutivos "Amarela" (Pt. e Gz.), "Amareleja" (duplo diminut.?), "Amarelinha" (duplo diminut.), "Amarelo" e "Amarelos"

Santo Tirso:
os seus atributos, a vara de hera e pâmpanos, ligam-no a Baco-Dionisos. é provavelmente um avatar de uma qualidade divina equivalente, a que a população galaica autóctone prestava culto

São Brissos:
este quase desconhecido filho de Deus teria sido discípulo de S. Martinho, e por isso é visto em lugares onde há antas transformadas em estranhas capelas, como em Montemor-o-Novo

São Cristóvão (Gal., Port. e Bras.):
Christophoros é "o que transporta Cristo". porque o Cristo Menino que levou aos ombros (noutras versões da lenda, na barca) pesava tanto como o mundo inteiro, Cristóvão é um avatar de Hércules. e porque levou o Menino de uma margem para a outra do rio, costuma ser padroeiro de lugares onde a travessia do rio, de barca ou a vau, fosse necessária mas difícil. mais difícil ainda é haver "S. Cristóvão" sem um rio de seu. é um santo muito frequente na toponímia brasileira

São Félix (Pt. e Br.) - há vários santos com este nome. mas como este topónimo está associado quase sempre a montes, em Portugal e na Galiza, é possível que se refira a S. Félix eremita, discípulo de S. Frutuoso. a evolução fonética do topónimo tendeu para "S. Fiz" e "Sanfins". porém, no Brasil e em alguns casos portugueses, deu-se uma recuperação erudita do nome inicial. exº: "S. Félix da Marinha"

São Fiz - ver "São Félix" e "Sanfins"

São Galo:
entra em topónimos como "Sangalhos" (Pt.) e "Saint Gallen (CH.). o nome "galo" quer dizer "celta", pelo que, provavelmente será uma forma de cristianizar costumes celtas.

São Gens, S. Gés (Gal.), S. Ginês, Sanxenxo ou Sanjenjo (Gal.):
aqui o caso é mais complicado, porque, podendo arrolar-se uns obscuros Sancti Genesii para oragos destas terras, o mais provável é que a santidade ou sacralidade esteja na gens ou tribo de antepassados que habitavam o respectivo território ou castro

São Gonçalo (de Amarante):
nascido nos meus eidos, é, curiosamente, um santo que nunca foi canonizado (? *). está associado ao casamento das velhas, mas, dadas as particularidades do seu culto, estas velhas devem ser traduzidas por antigas. a sexualidade pagã antiga é o pasto do seu rebanho. está, pois, em lugares onde essa sexualidade tântrica se celebrava, em dias de renascimento da vida, pouco depois, se não dentro, da quadra de Natal, tomando o nome carinhoso de S. Gonçalinho. construiu pontes, a principal das quais terá sido a ponte do diabo entre esse paganismo indo-europeu de base e o cristianismo de cúpula. tem fiéis por exemplo em Amarante, em Aveiro, no Porto e no Brasil, onde o seu culto perdura bem fresco e uma cidade merece o nome de S. Gonçalo de Amarante (RN)

São João:
este santo aparece ligado à água: fontes, pontes, rios. no entanto, há dois S. João, o Baptista e o Evangelista, cada um ligado a seu solstício


São Luís (Br.):
este santo é Luis IX, rei de França, instigador da sétima Cruzada. é muito usado na toponímia ultramarina de origem francesa, como nos Estados Unidos (St. Louis, Louisiana) e no Brasil (exº: S. Luís do Maranhão)

São Macário:
este santo de longas barbas e tanga de folhas convém a lugares altos, ermos, inóspitos, muito afastados das banais preocupações terrenas, onde nem o diabo lá vai

São Mamede:
é um hagiónimo (nome de santo) tomado de empréstimo ao islão (Muhâmmad, O Profeta). aparece em lugares sagrados do paganismo tradicional em território preferencialmente moçárabe. aparece sobretudo ligado a serras ou lugares elevados (o tema Maomé e a Montanha ?)

São Manços:

São Martinho:
há dois S. Martinho, o de Tours (França) e o de Dume (Portugal). são ambos naturais da Panónia, actual Hungria, e estão ambos ligados à cristianização da Gália (França. mas: galos=celtas). S. Martinho de Dume, mais novo dois séculos, está particularmente ligado também à conversão dos suevos, que ocuparam a Galécia (Galiza e Norte de Portugal). estão, pois, associados à cristianização do paganismo ariano, celta e germânico, e da chamada civilização megalítica. S. Martinho de Tours tem como campo de intervenção próprio as antas e os menires. tem discípulos como S. Brissos, a quem coube dar o nome aos locais megalíticos de cristianização mais superficial (ver S. Brissos)

São Miguel:
vê-se em lugares onde sempre se prestou culto a numens alados, a emanações telúricas. líquidas e gasosas. é frequente em termas, rios, mananciais e nascentes. em lugares castrejos, onde tenha havido um culto a uma entidade divina com asas, não é raro aparecer como S. Miguel-O-Anjo.

São Pedro ou S. Pero:
aparece ligado à pedra ou a pedras com uma função iniciática. é particularmente visto em lugares com as chamadas sepulturas antropomórficas, que nem são sepulturas nem antropomórficas. um belissimo exemplo é S. Pedro de Lourosa. também aparece em aldeias de pescadores, como S. Pedro da Afurada. Para ver um exemplo siga o link, que mostra "sepulturas antropomórficas" já sem tampa.

São Romão:
Romão quer dizer "romano". há pelo menos três santos com este nome. São Romão está relacionado com cultos pagãos, alguns dos quais em vigor durante o império romano. como um dos "Romão" foi discípulo de São Martinho, aplica-se o que está dito em "São Brissos" e em "São Martinho".

São Telmo:
na realidade, o nome do padroeiro de Tui é Sant' Elmo ou Erasmo. a sua lenda criou-lhe o perfil adequado para protector de marinheiros, pois que os salvará, sempre que puder, das tempestades do mar. Fica bem como topónimo de antigas comunidades de marujos


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(*) no link indicado diz-se que S. Gonçalo terá sido canonizado por Pio IV. outras fontes dizem que não

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Serras, Montes e Montanhas


tal como acontece com os rios, as serras, montes, cordilheiras, montanhas e serranias devem muito frequentemente o nome que têm a um processo de estratificação linguística, ao longo do qual se repete, em línguas diferentes, o significado de "serra", "montanha", "monte", "penha", "peneda", "penedia". as montanhas, lugar onde nascem os rios e onde brotam fontes termais, são o centro de cultos ancestrais ligados à vida, à saúde e à cura de doenças. são manifestações do sagrado por excelência, mas não são divindades autónomas, no sentido grego tardio do termo. quer dizer, são theos adjectivo (divino), mas não são theos substantivo (deus).

Aboboreira -
Alvão - tema em Alba

Amarela - A Marela? grupo Marão/Marofa/Meira. ver post Mouros e Mouras... ver post Muitas Marias...

Agrela - diminut. de "Arga"?
Arga -
Aveleira - de "A Veleira"?
Barroso -
Bornes -
Bussaco - e não Buçaco. Cf. Bussac (F.)
Cabreira (Pt. e Gz.) - ver post "Cabras e Cabreiras"
Canda (Gz.) - o mesmo que Peneda
Candeeiros - o mesmo que Penedas, Penhas, Penedias
Caramulo - Kar.+Mulo: monte pedregoso. espinhaço?
Carneiro - Karn. monte pedregoso. Cf. Kern, Cornwall, UK
Carvalho - tema em Kar.: pedra. Penha, Peneda?
Cerveira -
Chão da Mulher - "plano do monte"
Espinhaço de Cão -
Espinheira -
Espinheiro -
Espinho -

Estrela - orónimo que se repete um pouco por todo o lado, especialmente em Euskadi (sob a forma "Lizarra" e derivados) e em França ("Esteille", "Esterelle", etc.)

Freita -
Gerês/Jurés/Xurés - Cf. Jura, (F. e CH)

Lapa - a existência da Senhora da Lapa indica que se trata de um monte santo, sagrado

Larouco - como apareceram inscrições dedicadas a uma "divindade" com este nome, é de supor que fosse um monte santo. então, poderemos arriscar que esse "deus" Larouco seria o mesmo que Senhor da Serra, invocação frequente noutras paragens serranas

Marão - ver post Mouros e Mouras...
Marofa -
Meira (Gz.) - ver post Há Muitas Marias...
Miro -
Monchique -
Monsanto - "Monte Santo"
Monsaraz - híbrido lat. Mons + ...? : monte-monte?
Mont'alto

Monte Figo/Montefigo - é um pleonasmo: "monte-monte". atenção aos topónimos "Figueira" e "Figueiró"

Montejunto -
Montemor - de "Monte Maior": "monte grande"
Montemuro - Monte+Muro/Mulo: monte-monte
Montesinho -
Mu -
Mula -
Mulher -
Mulher Boa -
Mullerboa ou Mulherboa (Gz.) -
Mulher Morta -
Mulo -
Muro -
Muros -
Nogueira
Ossa -
Padrela -

Peneda - a existência da Senhora da Peneda indica que se trata de um monte santo, sagrado

Penha - a existência da Senhora da Penha indica que se trata de um monte santo, sagrado
São Mamede (Gz.) - serra galega onde nascem o Rio Lima e o Rio Tâmega
São Mamee (Pt.)

Serra - algumas serras, quase sempre de pequena altitude, têm simplesmente este nome

Sicó -
Soajo -


terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Barcas, Barcos e Barquinhas

este grupo de topónimos encontra-se largamente representado em Portugal e na Galiza, sendo também vulgar noutras regiões da Península Ibérica (veja-se Barcelona, antiga Barcino).
aparece em lugares ribeirinhos, propícios à travessia a vau ou através de pontes. o facto de não ter uma raiz indo-europeia, seja latina ou germânica, e parecer muito mais um grupo de topónimos proto-euskera, com um significado próximo de "veiga", "ribeira", "lugar ribeirinho", aponta para uma longa antiguidade desses povoados. em muitos desses lugares há uma zona de acostagem para pequenas embarcações.
de certo modo, pode tratar-se do correspondente ao inglês "Ford".
este topónimo, com a série de homofonias entre várias línguas e a sua localização presta-se a lendas sobre barcas que cruzavam o rio no tempo em que os animais falavam.

A Barca (Gz.)
Albarquel
Barca
Barca da Esteveira
Barca d'Alva
Barcadas
Barca da Trofa
Barca do Concelho
Barca do Lago
Barca do Loureiro
Barca do Mondego
Barca do Pêgo
Barcaia
Barca Nova
Barcarena
Barcaria
Barcegueiras
Barceiro
Barcel
Barcela
Barcelinhos (diminut. de Barcelos)
Barcelos (em analogia com outros topónimos em -celos: gente vinda de A Barca ou de O Barco?)
Barceosa
Barco
Barcoa
Barconha (terra de gente vinda de O Barco?)
Barcouço (?)
Barcoula
Barqueiro
Barqueiros (gente vinda de A Barca, ou de O Barco de Valdeorras?)
O Barco de Valdeorras (Gz.)
Ponte da Barca (aqui a Barca é anterior à Ponte)
Rua da Barca
Vila Nova da Barca
Vila Nova da Barquinha


Nota: os topónimos brasileiros Barcarena e Barcelos são transposições dos topónimos portugueses por gente possivelmente oriunda desses locais


terça-feira, 29 de novembro de 2005

Há Muitas Marias na Terra...

...mas nem tudo o que tem nome de Maria é simplesmente mulher.


O topónimo Maria pertence ao grupo de topónimos em "Almourol" (ver postagem "Mouros e Mouras...."), "Marão", "Mariola", "Meira", "Mora", "Morouços", "Moura", "Mouro", "Mouronho", e relaciona-se com a ideia de "pedra", "pena", "penedia", "penha", "penhasco":


Alto de Maria Dorme

Alto do Mariola - ver Mariola. poderá traduzir-se por Alto da Penina. na Comunitat Valenciana, Província de Alicante (Alacant), há uma "Serra Mariola"

Maçãs de Dona Maria - este "Dona" é o euskera "dona", que quer dizer "Santa"? nesse caso, traduzir-se-ia por "casais da penha-penedia-pedra santa"? ou, simplesmente, por "Casais de Santa Maria"? sobre "Dona" ver post. NB: no entanto, há quem veja nesta "D. Maria" a D. Maria Pais Ribeira, amante do segundo rei de Portugal, D. Sancho I, a qual ficou conhecida como a Ribeirinha. "Maçãs" seria o nome de uma ribeira. ver "Hidrónimos ou Nomes de Rios". o problema é a presença, nas proximidades de Maçãs de D. Maria, dos topónimos "Maçãs de Caminho" (mais próprio de "Maçãs"="mansões", "casas de repousar") e de "Vendas de Maria" (em que a senhora passa de "Dona" a uma mulher qualquer...).

Maria Gomes

Marialva - junta os temas Maria e Alva/Alba. o mesmo que Penalva: monte rochoso

Marianaia
Maria Pires
Maria Queimada
Maria Santinhos
Maria Vinagre
Mariola - diminut. de Maria: "peninha", "penina"
Pedra Maria - pleonasmo: "pedra-pedra"
Venda de Maria - muito perto de Maçãs de Dona Maria


do mesmo grupo:

Almeirim (?)
Amarela
Amareleja
Amarelo
Amarelos
Meira (Gal.)

(...a continuar...)

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Hidrónimos, ou Nomes de Rios

os nomes de rios (assim como o nome das serras), obedecem muito frequentemente a uma regra simples de estratificação, que consiste em sobrepor a palavra "rio" nas sucessivas línguas dos povos que ocuparam o território ao longo dos tempos. um bom exemplo disso é o Rio Guadiana: "rio guadiana"; isto é, "rio-rio-rio". Calidónia*(Gz.) fez o favor de contribuir para este post, com alguns dos nomes apontados adiante. estudar esses nomes é um interessante exercicio de arqueologia linguística, já que todos os nomes de rios que se seguem querem dizer "rio", "corrente" ou "manancial" na respetiva língua original:


Abad (Gz.) (o mesmo que Abade)

Abade - tem as variantes dialetais Ba*, Bade* e Vade , sendo que o "Vade" português deverá ser uma hipercorreção de origem erudita em lugar de "Bade". pode, porém, haver contributos linguísticos muito diversos para resultados idênticos. no atual euskera "ibai" significa "ribeira". tem origem num anterior "bai", não sei se o mesmo que o "Bad". há quem veja esta raiz nos topónimos "Baião" e "Baiona".

Abade de Neiva -
Abadia - está em lugar de A Badia
Abadim *(Gz.)
Adão
Adinho
Águeda
Alcabrichel
Alcoa - híbrido árabe Al + "Côa": "O Côa"
Alcórrego - híbrido árabe Al + "Córrego": "O Córrego"
Alenquer - híbrido árabe Al + "ank": "O Rio"
Alfusqueiro
Almonda - híbrido árabe Al + "Monda": "O Rio". ver "Mondego"
Alva

Alviela - diminut. de Alva ? ou Al+"Venella": "pequeno veio de água"?

Alvôco - diminut. de "Alva"
Ançã
Ancão
Âncora
Anços
Anlhom (Gz.) - graf. altern. "Anllón"
Ansião
Antanhol
Antuã
Ar (Gz.) (*)
Arade (*) - rio arade: rio-rio-rio?
Arante (Gz.) (*)
Arenteiro (Gz.) (*)
Arão (*)
Arapouco (*) - ribeira de Arapouco: ribeira-ribeira-ribeira?
Aravil (*)
Arda
Ardela - diminut. de Arda (*) Arelho - diminut. de Aro (*)
Ares *(Gz.) (*)
Arnego (Gz.) (*) - repare-se na terminação "-ego", como "Mondego"
Arnóia
Arouca (*)
Arouce (*)

Arraiolos (*) - não é hidrónimo mas refere-se a pequenos rios ou riachos: diminut. plur. de Arroio: Arroio+ olo+s

Arróio (*)
Arunca (*) - "aro"+"ank": rio-rio?
Asnes
Asnela (diminut. de Asnes ?)
Asnos
Avanca - "av-"+"ank": rio-rio
Ave (*)
Avia (Gz.) (*)
Avô - de "Avolo", diminut de "Ave": "Avoo" - Avô
Ba ou Baa (Gz.)
Baça
Baçal- do grupo Baça, Beça, Rabaçal
Badaguas (Gz.)
Bade (Gz.) - ver "Vade"
Baião
Baiona (Gz.)
Bálsamo
Balsemão
Beça
Beijames
Beijós
Bessa - ver "Beça"
Bestança
Cabrão - ver post "Cabras e Cabreiras"
Cabrum
Cádabo (Gz.) - variante de "Cávado"
Cadavaio - de "Cádavo"+ "Aio": rio-rio?
Caima
Canadinho
Caneiro
Cão

Caralho - raiz "karr-". tal como Cabrão e Carenque, este hidrónimo deve referir-se ao carácter pedregoso do leito do rio ou ribeiro e não à presença de água corrente

Carenque - refere-se ao carácter pedregoso do leito: Karr- + Enk: "rio das pedras"

Cávado -
Ceira -
Ceiroco - diminut. de "Ceira"
Ceiroquinho - duplo diminut. de "Ceira"
Ceras
Cértima
Cértoma
Cesta
Côa
Codes
Coina
Côja - o mesmo que Côa?
Corgo - pronunc. Córgo. variante de Córrego
Corregacho - pleonasmo: Córrego+Riacho?
Corregato - pleonasmo: Córrego+Regato?
Córrego
Corregozinho (Br.)
Correguinho (Br.)
Corrigatos (Gz.) - plur. de "Corregato"
Corvo - o mesmo que "Corgo" (?)
Coura -
Couros -
Criz -
Cua *(Gz.) - do grupo "Côa" (Cuda)
Dão - ver postagem sobre Rio Homem e Rio Dão
Deça (Gz.) - Cf. "Dueça". graf. altern.: "Deza"
Degebe - Ode+Gebe. rio degebe: rio-rio-rio)
Deva (Gz.)
Divor - do céltico "dur": água. a mesma origem de "Douro"
Diz (Gz. e Pt.)
Douro - "rio"
Dubra (Gz.) -
Dueça (Gz.) -
Égua -
Eita -
Eo / Eu (Gz.) -
Erges -
Este -

Eume *(Gz.) - cf. Pontedeume ou Ponte d' Eume (Gz). cf. com "Uima" e "Umia"

Gebre
Gromau
Guadiana - "wadi"+"ana": rio-rio. Rio Guadiana: rio-rio-rio
Homem - ver postagem "Rio Homem, Rio Dão"
Ilha (Gz. e Pt.) *(Gz.)
Inha
Labiados

Labruge - refere-se ao carácter pedregoso do leito do rio. ver Lobão

Ladra (Gz.)
Lama (Gz.)
Landro (Gz.)
Leça
Lena
Lever
Levira
Lila
Lilela - diminut. de Lila
Lima (Cf. Limat em Zurique, CH)
Lis - ver também "Lisandro"

Lisandro - rio Lisandro: rio-rio-rio? do grupo "lis-" , como "rio Lis", e do grupo "-andro", como "rio Sisandro"

Lobão - ver post "Lobos, Lobinhos e Lobões". deve significar "rio de pedras": "lob-" ou "lop-" + "ão"

Lonha ou Loña (Gz.)
Lor (Gz.) - ver "Loura", "Louro"

Loura (Gz.) - mesma origem linguística de "Loire", rio de França. significa "rio"


Louro (ver "Loura")
Maçãs - Cf. com "Rio Manzanares" (Madrid, Espanha)

Marnel - afluente do rio Águeda. Cf ."Marne", rio francês, afluente da margem direita do Sena. Marnel é diminutivo de Marne ("marnelo") com influência da fonética moçárabe.

Massueime -
Minho (Pt. e Gz.)
Minhor ou Miñor (Gz.)
Mondego - de "monda": rio
Nabão
Nava
Navea *(Gz.)
Navia (Gz.)
Neira (Gz.)
Neiva - o mesmo que Navia
Ocreza
Odelouca (árabe "ode"/"wady"+ "louca": rio-rio-rio?)
Ôlo - do grupo Olho, Ul, Ulha, Ulho
Olho - do grupo Ôlo, Ul, Ulha, Ulho
Ota - linguisticamente semelhante ao árabe "odi"/ "wady"
Ouvelha (Gz.) - o mesmo que Ovelha
Ovelha
Ovelhinha - diminut. de Ovelha
Paiva - o mesmo que Pavia
Parga (Gz.)
Pavia
Pei - hidrónimo equivalente a "Pele"
Pele - do grupo Pei, Peio, Pele, Pelhe
Ponsul - ver Sul. rio-rio-rio?)
Rabaçal - ver "Rabagão". de raba+baçal

Rabagão - o mesmo radical "raba-.-" presente em "Rabaçal": raba-g-ão

Riacho das Almas (Br.)

Ribeira das Donas - um pleonasmo: "ribeira da ribeira". aqui "Dona" e "Donas" é parente de "Don" e "Duna" (Danúbio)

Ribeira de Abade - um pleonasmo: "ribeira de ribeiro"
Ribeira de Pão Quente - seguramente um equívoco fonético
Ribeiro de Além
Ribeira de Verdelhos
Rio Grande (Gz. e Br.)

Ródão - topónimo frequente, não parece nome de rio em Pt. mas refere-se à presença de um rio. Cf. Rhein, Rhin, Rhône, Ródano

Sabor - pronunc. Sàbôr
Sado - a mesma origem de "Sátão": Sádão; Sado
Sambro
Sar (Gz)
Sarela (Gz.) - diminutivo de "Sar"
Sarnes
Sarria (Gz.)
Sarrazola - do grupo "Sar" / "Sarria" / "Ser" / "Sor"
Sátão - ver "Sado"
Seia - Cf. "Seine" (Fr.)
Selga
Selho - o mesmo que "Sil"
Ser *(Gz)
Serol
Sever - do grupo "Sabor" / "Xévora" / "Távora"
Sil (Gz.)- Cf. "Sihl", em Zurique (CH)
Sionlha (Gz.)
Sirol
Sisandro
Sonoso - em "Ribeiro Sonoso"
Sôr
Sorraia - Rio Sorraia: rio-rio-rio?
Sótão - o mesmo que "Sátão"?
Soure
Sousa
Sul - do grupo "Sil" / "Selho"
Tambre (Gz.)
Tâmega - Cf. "Tambre", "Thames", "Támoga"
Támoga (Gz.) - Cf. "Tâmega"
Tamuge (Gz.) - Cf. "Tâmega"
Távora
Tea (Gz.)
Tedo
Teixeira
Teja - ribeira Teja
Tejo
Telha ou Tella (Gz.)
Torno
Trofa
Trovela - diminut. de "Trofa"?
Tua
Tuela - diminut. de "Tua"
Uima - Cf. "Umia"

Ul - do grupo "Ôlo" / "Olho" / "Ulha" ou "Ulla" (Gz.) / "Ulho" ou "Ullo" (Gz.)

Ulha ou Ulla (Gz.)
Ulho ou Ullo (Gz.)
Umia (Gz.)
Vade - Cf. "Abade"
Varosa - do grupo "Var" / "Ver"
Ver
Verdelhos - ver "Ribeira de Verdelhos"
Vez
Vizela - diminut. de Ave. lat.: "avicella"
Vouga
Xévora - do grupo Távora?

Zêzere - nome muito antigo, significa "rio". há uma Santa Marinha do Zêzere no norte de Portugal, concelho de Baião, muito longe do Rio Zêzere afluente do Tejo. ver Comentº de Liliana Pinto.


nota: (*) hidrónimos em "ar-" e "av-": formam o nome da cidade de Aveiro (Av-+Ar-: rio-rio), assente num território de rios e esteiros. na mesma região, há o topónimo "Avanca", formado por "av-" e "ank-": rio-rio.


sábado, 19 de novembro de 2005

Topónimos Militares









desde sempre as instalações militares, sobretudo as de vigia e defesa, deixaram marcas na toponímia, significando isso a importância que os respectivos povos e civilizações atribuíam à sua própria segurança.

podemos elencar:

A Guarda (Gz.)
Alfarelos -do árabe, As Vigias
Alvorge - o árabe, A Torre
Atalaia
Baluarte
Batalha
Belver (?)
Castelejo
Castelo
Castêlo
Castelo Branco
Castêlo da Maia
Castelo de Alferce
Castelo de Paiva
Castelo de Vide
Castelo Novo
Castelo Rodrigo
Castelo Ventoso
Castrelo
Castrelo do Val (Gz.)
Castro

Castro da Cola - Cola", do árab. Qua' la: "forte", "fortificação". é um pleonasmo

Castro d'Aire
Castromil (Pt. e Gz.)
Castro Roupal

Castro Verde (Pt. e Gz.) - neste caso, às vezes grafado Castroverde

Cerca Velha
Circunvalação
Fortaleza (Pt. e Br.)
Forte
Guarda (Pt. e Gz.)
Guarda Inglesa
Guarda Nova
Guardizela - diminut. de "Guarda"
Mira (?)
Mira d'Aire
Miranda (?)
Mirandela (?)
Monforte (Pt. e Gz.)
Monfortinho
O Castelo (Gz.)

Pêro Viseu - de "Pêro" (pedra, penedo, lajedo) + "Viseu" (guarda, vigia, atalaia). e por que não "Peroviseu"?

Santiago da Guarda
S. Pedro da Torre
Sargento-Mor
Sentinela
Torralva (?)

Torre (Pt. e Gz.) - algumas "torres" são derivadas do basco iturri e significam "fonte"

Torre da Medronheira
Torre da Silva
Torre das Vargens
Torre de Bera - ver aqui
Torre de D. Chama
Torredeita (?)
Torre de Moncorvo
Torre de Vilela
Torrejão (?)
Torres
Torres do Mondego
Torres Novas
Torres Vedras
Torres Velhas - o mesmo que Torres Vedras, mas linguisticamente mais recente
Torre Vã
Torrinha
Torronha (Gz.) (?)
Torrozelas (?)
Valença
Valença do Douro
Valença do Minho
Vela
Vigia

Viso - lugar alto onde está ou esteve uma vigia ou atalaia


sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Rio Homem, Rio Dão

certos rios podem ter destas coisas. podem ter nomes que os faz parecer estranhos entre si, mas um exame mais atento mostra que, afinal, são rios da mesma criação. é o caso do Homem e do Dão .
"Om" é o nome de origem de ambos os rios, que apenas estão separados pela pronúncia. o segundo nasalou e ficou "Ão". o primeiro não e ficou "Ome". e agora entra em cena uma outra operação: ao "Ome" botaram-lhe um h no começo e um m no fim, porque parecia mal dizer "home" em vez de "homem". o "Ão" levou um D no início porque se esqueceram do apóstrofo e não soa bem dizer "...de Ão". por exemplo, Santa Comba d'Ão que era, ficou Santa Comba Dão. a pronúncia é igual, a escrita é que mudou.
bem perto de Santa Comba d'Ão existe uma Várzea do Homem, testemunha fiel da existência do tal "Om" - que quer simplesmente dizer, na sua antiquíssima língua, "fonte", "manancial", "água corrente". ou seja, rio.

estes hidrónimos multiplicam-se por toda a Galiza e em Portugal. as muitas teorias em que a Toponímia se deleita e compraz não afastam o parentesco "Ão"/"Home" - nem poderiam.

e um outro rio, aliás parceiro do Homem na bacia do Cávado, tem no seu nome a palavra "Ão": o rio Rabagão, de "raba-g-ão".que entra tamém para a família dos hidrónimos em "raba-", como Rabaçal.



segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Designações Erradas na Toponímia Portuguesa

algumas designações toponímicas de Portugal Continental, sobretudo as que se referem a Regiões ou troços de rios luso-espanhóis, carecem de revisão, pelos erros que representam e pela confusão que estabelecem com as designações espanholas. algumas dessas designações já estarão irremediavelmente consagradas pelo uso, outras não trarão grande mal ao mundo se forem corrigidas.
noutros tempos, em que Espanha e Portugal quase não se conheciam, talvez ninguém desse pelo erro, mas agora, que são dois Estados da União Europeia sem fronteiras internas, é bem difícil não topar os erros e não descobrir onde está o equívoco.
no que toca aos rios, chama-se "Alto..." ao troço que corre em altitude, a partir da nascente ; "Riba..." ao troço que corre entre vales e gargantas, mais ou menos profundos - as "arribas"; e "Baixo..." ao troço final, mais ou menos plano, que segue até à foz.

assim, vejamos:

"Alto Minho" (que é o "Baixo Minho" galego, a designação correcta. o verdadeiro "Alto Minho" situa-se na Província de Lugo)

"Alto Douro" (na realidade é "Riba Douro". o verdadeiro "Alto Duero" situa-se a montante de Burgos)

"Baixo Minho" (na realidade é "Vale do Ave")

"Ribatejo" (na realidade é "Baixo Tejo". o verdadeiro "Riba Tejo" situa-se entre as Portas de Ródão e Almourol)

"Vieira do Minho" - ver "Topónimos Viários"

domingo, 6 de novembro de 2005

Alguns Nomes de Rios em Tupi-Guarani


no Brasil, os topónimos têm uma de duas origens linguísticas: a nativa, em língua tupi-guarani, ou a europeia, em língua portuguesa. apenas uma fração muito residual tem outra origem, inclusive anterior ao tupi-guarani.
o hidrónimos (grego: nomes de rios) obedecem a um padrão universal, que se repete nas outras culturas, nas outras línguas e nos outros povos.

apenas alguns exemplos:

Aguapey - aguape (nenúfar)+y (água, rio) = "rio dos nenúfares"
Anhangay - anhangá (o diabo)+ y (água, rio) = "rio do diabo"

Guaíba - gua (grande) + y (água, rio)+ ba (lugar)= "lugar de água grande", "lago". na realidade, discute-se se o Guaíba é um rio, pois tem propriedades de lago

Iguaçu - por "Iguassu": y (rio) + guassu (grande) = "rio grande". o mesmo que "Guadalquibir" ou "Guadalquivir", em árabe. também existe em português, como em "Rio Grande do Sul"

Ipanema - y (água, rio) + panema (mau) = "rio mau". também existe em português "Rio Mau"
Ipiranga - y (água, rio) + piranga ( vermelho) = "rio vermelho"
Sapucaí - sapucaia (nome de fruta)+ y (rio) = "rio das sapucaias"

Solimões - nome de tribo índia ( os Solimões ). quer dizer, como em vários exemplos na Europa, "o rio em cuja bacia ou margens vive a tribo dos...", neste caso dos Solimões

Tamanduatey - por tamandetay: "rio que faz muitas voltas". também há em português rios com o mesmo significado (por exº, Rio Torto?)

Tapajós - nome de tribo índia (os Tapajós). neste caso, "o rio em cuja bacia ou margens vive a tribo dos..." Tapajós. quanto a "Tapajós" ver post "O Topónimo Aldeia no Brasil" - arquivo outubro 2005




quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Topónimos Viários

Ponte das Três Entradas

enquanto ia no Caminho, fui rabiscando todos esses topónimos que nos falam de veredas, estradas, carreiras, calçadas, caminhos, ladeiras, azinhagas, [estradas] mouriscas, [estradas] reais, vianas, vieiras, corredoiras ou corredouras, cruzes, entroncamentos, ruas, albergarias, arrifanas, catraias, vendas, malapostas, pousadas, sei lá que mais...
a profusão de topónimos viários demonstra à saciedade a importância que sempre tiveram as vias terrestres, e sua logística, na vida dos seres humanos.
Vejam só:

A Estrada (Gz.) - caminho entre dois povoados
Albergaria (Pt. e Gz.)- casa onde se albergavam os peregrinos
Albergaria-a-Nova
Albergaria-a-Velha
Alcântara - do árab.: "a ponte"

Alcantarilha - do cast. alcantarilla: "construção destinada a permitir que um pequeno canal cruze uma estrada por baixo". de certo modo, é uma ponte ao contrário.

Alcongosta -
Almansil - árab: "a pousada"
A Lomba (Gz.) - ver "Lomba"

Alportel - híbrido árab. al + rom. portela: "a +portela". ver "Portela"

Alto da Estrada - ponto alto de uma povoação onde passa a estrada
Alvalade - árab: caminho, via

Arrebentaço - vereda muito íngreme, que só se pode fazer a pé e sabe Deus como

Arrifana - árab: a venda
A Rua (Gz.) - caminho ou estrada entre casas. ver "Rua"
Avelãs de Caminho

Azinhaga - árab: az-zanaka: caminho estreito

Calçada - troço de estrada romana com calçada de pedra
Calçada do Gato
Calçadas -

Caminho (Pt. e Gz.) - para se fazer a pé
Canada -
Carreira (Pt. e Gz.)- para se fazer com carro, carreta ou charrete
Carreiras -
Carreira Velha - carreira antiga
Carreiro - caminho estrito, atalho, vereda; caminho para carros
Carreiro de Joanes -
Carreiro do Inferno -
Carreiro Velho -
Carril - caminho estreito, carreiro
Catraia - um caselho na borda da estrada
Cêrro da Portela - o mesmo que "Sêrro da Portela"
Corredoira (Pt. e Gz.)- o mesmo que "Corredoura"

Corredoura - caminho para carro ou carreta. ver Carretera (Esp.)

Coruche - cruze, cruzamento
Corucho - cruze, cruzamento
Corujeira (Pt. e Gz.) - lugar de cruzamentos ? encruzilhada?
Coruxeira (Gz.) - ver "Corujeira"
Cruceiro (Gal.) - de "Cruce" ou "Cruze": cruzamento
Cruz - de "cruze": cruzamento

Cruz da Légua - duplo topónimo viário. não nos diz a partir de onde se conta a légua

Cruz da Toita -
Cruz de Celas -
Cruz de Chão do Bispo -
Cruzeiro - ver "Cruceiro"
Encontro - lugar onde confluem caminhos ou estradas
Encruzilhada - cruz, cruze, cruzamento
Entroncamento - lugar onde entroncam duas vias
Entroncamento de Poiares -
Enxara - do árab. "ax-xára'a": "estrada", "caminho"
Enxara do Bispo -
Enxara dos Cavaleiros -
Enxaras de Baixo -
Enxaras de Cima -
Enxaras do Meio -
Estrada -
Estrada Velha - antigo troço de estrada
Estradinha -
Formoselha - ver aqui
Jã da Rua - de "Jã", do lat. "jana": "porta"
Ladeira - troço de caminho ou estrada com inclinação
Ladeira do Pinheiro

Lomba (Pt. e Gz.) - cumeada de uma elevação. maior ou menor elevação que se apresenta numa estrada ou caminho relativamente plano

Maçãs de Caminho - duplo topónimo viário: mansões (de repouso) + caminho
Malaposta - local onde parava a malaposta - carruagem do correio - para descanso, alimentação e pernoita, deixar correio e mudar de cavalos

Meia Via -
Mesão Frio -
Monte da Enxara - ver "Enxara"

Mourisca - variante mourisca de um troço de estrada anterior. não confundir com Mourisca e Mouriscas, quando se refere/m a aldeias

Muda - lugar de paragem dos passageiros e de troca de cavalos
Paçô Vieira -
Padrão da Légua -
Pontão -

Ponte das Três Entradas - ponte em Y, sobre dois rios, permitindo o entroncamento de duas estradas

Ponte Lobão -

Portagem - lugar onde se pagava imposto para atravessar uma ponte ou troço de estrada

Portel - o mesmo que "Portela" e "Portêlo"

Portela (Gz. e Pt.) - diminut. de lat. "porta": passagem estreita entre montes

Portela d'Home (Gz.) - o mesmo, mas mais correcto, que "Portela do Homem"

Portela do Extremo -

Portela do Homem - aqui "Homem" é um rio, cuja grafia correcta seria "Ome". ver "Portela d'Home". pretendendo corrigir a pronúncia popular de "home" por "homem", os eruditos ignoraram as origens do nome do rio "Ome"

Portela do Lobo -
Portela do Pereiro -
Portela do Vade -
Portela do Vento -
Portelinha - diminut. recente de Portela
Portelinho - diminut. de "Portêlo"
Portêlo - passagem estreita. diminut. intermédio de Porto
Portinho - diminut. recente de Porto

Porto - sítio por onde se pode atravessar um rio ou um monte. não confundir com "porto", abrigo para embarcações

Porto Alto -
Porto Antigo -
Porto da Carne -

Porto d'Ave - primeiro sítio onde é possível atravessar o rio Ave depois da nascente

Porto do Rei -
Portuzelo - diminut. arcaico de Porto

Pousada (Gz. e Pt.) - casa onde se re-pousava quando se viajava, a pé, a cavalo ou de carruagem

Pousada de Saramagos -
Pousadoiro (Gz.) -
S. Bento da Porta Aberta
S. Brás de Alportel - ver "Alportel"
Rua -
Rueiro (Gz.) -

Santiago da Cruz - hoje, por um secularismo mal informado, há muito quem diga apenas "Cruz". o topónimo indica duas coisas: que se trata de um cruzamento e que o caminho ou estrada principal levava a Santiago de Compostela.

Sêrro da Portela -
Valinho da Estrada -
Vendas de Maria -
Verea (Gz.) - vereda, caminho estreito
Vialonga -
Viatodos - (?)

Vieira - fem. de "vieiro": senda, caminho, vereda, carreiro. não confundir com "vieira", do lat. "venerea", "de Vénus", conhecida concha de molusco associada ao nascimento da deusa Vénus

Vieira de Leiria

Vieira do Minho - topónimo aparentemente incorrecto, pois que "V do M" não se situa no Vale do Rio Minho, mas sim na nascente do Rio Ave. mas pode interpretar-se como "o [início do] caminho ou vereda que conduzia à Região do Minho" os que lhe botaram o nome - e aí está certo

Vieiro - sendeiro, caminho

Vreia de Bornes - o mesmo que "Verea". uma "vereda" na Serra de Bornes
Vreia de Jales - uma vereda na região [das minas de oiro] de Jales


"Compostela", "Bustos" e "Bustêlo"


o amigo João Lopes Ribeiro (Jolorib), de S. Paulo, deixou o desafio: "e Compostela, qual o significado?" é claro que eu ia falar disso, uma coisa chama a outra, vespeiro chama vespeiro, mas assim levo já a picada.
sabe, o Caminho começa em Aachen (antiga Aix-la-Chapelle, de Carlos Magno), na Alemanha, e termina em Compostela, na Galiza. e o que existe numa e noutra cidade? um túmulo.
"Compostela" existe na Galiza, mas também existe em Portugal. faz parte de uma família de topónimos cujo significado anda em torno de com-bustão, como "Bustos", "Bustêlo", "Compostela", associados a lugares de transformação do vivo em morto e do morto em vida, através de "com-bustão", que pode significar putrefacção ou cremação.
"Compostela" é isso. só que essa "combustão" pode bem ser outra, para quem leu alguma coisa a respeito de Alquimia. e em Compostela, perdão, em "Santiago de Compostela", tudo tem um jeito especial de ter duplo sentido: a "Praça do Obradoiro", a "Rua dos Prateiros", a "Rua dos Ourives", a "Rua dos Azevicheiros", tudo ali em redor da Catedral. o mais difícil será fazer de conta que nada disso tem um sentido, ligado à Obra d'Oiro (Alquimia), à transformação dos metais e à transformação interior que faz tanta gente lá ir. há quem diga que para re-nascer, quer dizer morrer para a vida anterior e nascer para uma vida nova. o túmulo aí é um símbolo.
é claro que uma tal linguagem se presta a interpretações quase ao gosto do freguês..., mas que "Compostela", "Bustos" e "Bustêlo" estão relacionados com com-bustão e com-posto, isso estão.



há também quem fale que "Compostela" vem do latim Campus Stellae: "O Campo da Estrela". pode ser. mas nem assim a gente se livra do Caminho. porque essa tal estrela será a Sírius, da Constelação de Cão Maior, o cachorro que faz companhia a santiago...
e se essa estrela fosse, apenas, o lugar de encontro de todos os caminhos que chegam a Compostela? bom, não seria uma verdadeira "estrela", mas sim uma vieira ou concha de santiago, com suas estrias confluentes num ponto extremo. E não sairemos do Caminho...
a Toponímia é assim.







terça-feira, 1 de novembro de 2005

O Topónimo "Santiago"


à primeira vista, Santiago é um hagiónimo (do grego: nome de santo) e refere-se ao discípulo de Jesus, Jaccob, evoluído para Tiago após o costume de ser tratado por Santo Iago, Sant'Iago e, finalmente, Santiago e S. Tiago. mas será mesmo assim? o que faz o discípulo-irmão de Jesus, um natural do Oriente Médio, ali em Compostela, no cantinho Noroeste da Península Ibérica? e, sobretudo, como aparece ele associado a uma peregrinação milenar, tão anterior à vida terrena de Jesus de Nazaré que bem podia dizer-se dela, como dizem os índios do Brasil, que é aracajú, quer isto dizer, do tempo em que apareceu o cajú ou do tempo em que tudo começou.
é claro que há uma lenda cheia de simbolismo e de mistério que todos os que se fazem ao Caminho seguramente conhecem, mas que sabem também decifrar.
Santiago é "o fim do caminho", el camino [que] se hace al andar.
se andarmos por Navarra (Nafarroa) ou pelo País Basco (Euskadi), todos os caminhos e estradas são "Iasa" e a cidade onde o Caminho Francês sai dos Pirinéus e entra afoitamente na Península chama-se "Jaca". uma e outra são palavras de uma língua ibérica que também é muito antiga: o euskera ou basco. e em França os jacques ou peregrinos já se faziam ao Caminho de Santiago inda os tataravós do apóstolo andavam de cueiros e chupeta.
não andaremos muito longe da verdade se dissermos que entre os santos iagos e os santos peregrinos existe uma mudança de fronteira linguística e religiosa - o mesmo é dizer: política.
o Santo Iago cristão, o Apóstolo Jaccob, foi colado depois, na Idade Média, às peripécias do misterioso Caminho de Compostela. o facto de Almançor ter arrasado o templo em 997, sob o pretexto de tratar-se de um centro de paganismo, indica que o culto não tinha nada de cristão àquela data.
este é o Santiago principal, onde conflui uma vieira de estradas e caminhos, aqui e acolá semeados de povoações, vilas e cidades cujo topónimo integra Santiago ou S. Jacques. onde quer que se enxergue "Santiago de..." ou "S. Jacques de...", aí passa uma iasa ou caminho que leva a Compostela.
na Península, muitas dessas vilas e cidades estavam entregues à Ordem Religiosa Militar de Santiago, para protecção do Caminho então cristianizado.
por toda a Espanha, na Galiza e em Portugal não faltam topónimos que se referem a "Santiago" e ao "Camino", "Camiño", "Caminho", "Iasa". Quem não conhece Avelãs de Caminho, Santiago da Cruz (ver "Cruzamentos" e "Encruzilhadas"), Santiago da Guarda ou Santiago do Cacém?

nota: na América, o topónimo "Santiago" foi levado pelos espanhóis, já a cristianização do Caminho estava feita. e o s. tiago cristão toma o nome de st. james na inglaterra e de s. jaume na catalunha




domingo, 30 de outubro de 2005

O Topónimo "Brasil"

deixem-me ser um pouco heterodoxo. na verdade, sempre ouvi contar outra estória sobre a origem da palavra Brasil... mas é que não tem piada e se calhar nem está certa.
seja como for, sempre os nomes que botaram ao lado de lá tiveram seu quê de mistério. vocês acreditam em mistérios?
o primeiro nome do Brasil foi Terra de Vera Cruz . quer dizer: "terra da verdadeira cruz". porquê verdadeira? será que havia outra cruz e que era falsa? havendo uma falsa, só podia ser a mais conhecida (*); de outro modo pra quê explicitar o óbvio?
e quanto a Brasil: não é que na Ilha Terceira, em Angra do Heroísmo, há um Monte Brasil? podem contar todas as estórias a respeito disso, que eu não vou acreditar.
o que há entre Brasil e Monte Brasil? ambos ficam além, a partir deste lado do mar. e daí?
daí, os Celtas da Irlanda, muito antes do achamento da América, acreditavam que do lado de lá do Mar Oceano havia uma grande ilha ocidental a que chamavam Bre'asil.
para remate, voltando a onde comecei, imagino que a estória do "pau brasil" esteja invertida: que é o pau que deve o nome ao Brasil e não o Brasil que deve o nome ao pau.


sei que vão dizer que escrevi esta postagem com erros. é do jeito que eu sei que leram o meu blogue.
.....................................................

(*) a cruz celta, claro...

"Além" e "Aquém" : a partir do quê, a partir de onde?

os topónimos "Além" e "Aquém", simples ou compostos (às vezes com determinativo), levantam sempre a questão de saber a partir de onde se dá o nome a esse "além" ou a esse "aquém", a esse "diante" ou a esse "trás", a "esta" ou à "outra". vejamos onde está o ponto de onde a gente se refere para dizer "aquém" ou "além", "diante" ou "trás", "esta" ou "outra":

Além
Além do Rio
Além Parte (Gz.) - graf. altern: Alemparte
Além Tâmega
Alentejo (Além-Tejo)
A Outra Banda
Cruz da Légua (légua a partir de onde?)
Dianteiro
Gafanha de Aquém
Povo de Além
Trás-os-Montes
Vale de Além

acharam? embora não pareça, "trás-os-montes" é o mais difícil.



domingo, 23 de outubro de 2005

A Palavra "Pai" na Toponímia Galego-Portuguesa

encontro na toponímia galega e portuguesa, em diferentes regiões, nomes de aldeias ou lugares como "Pai Água", "Pai Cabeça", "Pai das Donas", "Pai de Aviz", "Pai do Vento", "Pai Mogo", "Pai Penela". o Pai aqui é mais que um, vem do latim pagii, plural de pagus, e significa "aldeias". são, realmente, topónimos de pequenas aldeias ou lugares, que, pela sua estreita proximidade com o latim, devem ter estado séculos isolados do resto do mundo e da erosão linguística.

com a amável colaboração de Calidonia *(Gz.) posso elaborar a seguinte lista:

A Paioca *(Gz.)
A Paiola *(Gz.)
Aspai *(Gz.) - (?)
Casalpaio *(Gz.) (é, de certo modo, um pleonasmo, coisa frequente em toponímia)
Espai *(Gz.) - ?)
Espailde *(Gz.) - (?)
Pai Água
Paião - lugar habitado por gente oriunda de um "Pai"?
Pai Cabeça
Pai Calvo
Paicordeiro (Gz.)
Pai da Cana (Gz.)
Pai das Donas
Pai de Aviz
Pai do Vento
Paiendes *(Gz.)
Pai Espada (ver post "Espadacinta")
Paíme *(Gz.) (?)
Paínho ou Paiinho - diminut. de "Pai"
Pai Mogo
Paiões - "oriundos de Pai"?
Paiola
Paiolante *(Gz.)
Paiosaco *(Gz.)
Paipenela
Pai Penela
Paisás *(Gz.)
Paíseo *(Gz.)
Pai Torto
Paizás ou Paiçás *(Gz.)
Paizosa ou Paiçosa *(Gz.)


mais "Pais": ver Comentºs de "O".

O Topónimo "Árvore"

o topónimo "Árvore" encontra-se associado ao mar ou ao curso final de um rio, situado de tal jeito que o mais difícil é não nos ocorrer que se refira a um "porto". mas, sendo assim, de onde vem a "árvore"? se nos lembrarmos de "Le Havre" e de "Harbour", a ligação entre uma coisa e outra ganha consistência.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Os Galegos na Toponímia Portuguesa

a expansão do Condado Portucalense para Sul, a aniquilação progressiva do Império Árabe e a criação do Reino de Portugal originaram uma rarefação populacional importante, que foi necessário suprir com povoadores oriundos de Castela ("Castelões"), das Astúrias ("Estorãos", "Esturãos"), do País Basco ("Biscaia", "Biscainhos", "Vasconha", "Nafarros", "Navarra"), de França ("França", "France", "Francelos", "Franciscos", "Francos", "Franqueira"), de Borgonha ("Vergonha"), de Sabóia ("Sabóia") e, sobretudo, da Galiza. e a toponímia portuguesa regista abundantemente a chegada e fixação no território desses povoadores patrícios vindos da Província Norte-Atlântica.

ver também Comentº de Calidonia: Lombo dos Galegos (Md.)


conforme a época em que chegaram e o local escolhido para ficar, encontramos "Aldeia Galega", "Galegos", "Galegos da Serra", "Galiza", "Galizes", "Golegã" (de Galegana), "Limãos", "Limões" (os dois últimos referem-se ao vale galego do Rio Lima), "Ourentã" (de Ourense? "Ourentana" ou "Ourensana"?), "Vilarinho dos Galegos"...

um caso curioso é o de São Félix dos Galegos (San Felizes de los Galegos), aldeia fronteiriça da província de Salamanca. foi portuguesa de 1297 (tratado de Alcanizes) a 1476, tendo o seu castelo sido erigido por D. Dinis.

claro que não conto aqui os irmãos galegos que se estabeleceram a título individual no nosso país, sobretudo em Lisboa. embora sejam em grande número, a toponímia não se ocupa deles, se bem que algumas cidades e vilas possam registar, nas suas ruas, praças e largos, o nome de alguns galegos que nelas se distinguiram .

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

"Coselhas" e "Portela da Cobiça"

nos arrabaldes de Coimbra, melhor dizendo, no perímetro actual da cidade, há dois topónimos curiosos que bem retratam as características dialectais do falar coimbrão, sobretudo na peculiar alternância da pronúncia de certas vogais, como "o" / "a" e "i" / "e".
assim se tranformou a pronúncia de "Caselhas" (pequenas casas, "casillas" em cast.) em "Coselhas" e "Portela da Cabeça" (Portela do Cimo) em "Portela da Cobiça".
faz sentido.


"Riba d'Ave" ou "Riba de Ave"? "Mira d'Aire" ou "Mira de Aire"? "Barca d'Alva" ou Barca de Alva"?

anda por aí uma praga de correctores de tabuletas que a pouco e pouco ainda destrói a nossa Língua. deu-lhes para corrigir o d' . e agora? se uma douta placa de cimento tem escrito "Riba de Ave", onde antes estava "Riba d'Ave", acontece o quê? que quem não é de lá, e por força do que ainda resta da lógica interna da nossa língua, leia "Riba di Ave" para escapar ao hiato impronunciável. e o mesmo acontece com "Mira di Aire" para ler "Mira de Aire". e com "Barca di Alva" para ler "Barca de Alva". se o problema é do apóstrofo, então escrevam "Ribadave", "Miradaire" e "Barcadalva". tem precedentes e não trai a Língua.



nota (1/10/2006): entretanto, alguém pensou o mesmo que eu, pois já encontro por aí escrito "Miradaire". como sou nortenho, da bacia do Ave, espero que alguém se lembre de acudir a Ribadave.

"Sernache" ou "Cernache"?

ultimamente, sem fundamento que se enxergue, as placas toponímicas deram a exibir, da sua preclarissima cátedra, a grafia "Cernache" onde antes figurava "Sernache". Quem tem razão?
fomos procurar as palavras da mesma família: "Sarnadela", "Senra" (Galiza e Port.), "Serna" (Esp. e Port.), "..ernache", "Sernada", "Sernadelo", "Sernalhoso", "Sernancelhe *", "Sernelha". são topónimos com base em "Serna" ou "Senra", que significa "terreno de semeadura", "seara", com origem no vocábulo pré-romano senara. os sufixos "-ache", "-ada", "-elha", "-elhe", "-êlo", "-oso", ou indicam quantidade ou são diminutivos e, além disso, dão-nos informações sobre os hábitos linguistico-dialectais da população que estabeleceu o topónimo.
a fazer fé na nova grafia "oficial" (?), teríamos então "Ceara", "Cemeadura", "Cenra", "Cerna", "Cernache", "Cernada", "Cernadelo", "Cernancelhe", "Cernelha".
Gostam?... Moi non plus!

ver post




* "Sernancelhe" não parece fazer parte deste grupo. tem sido apontado como provindo de "Seniorzelli".


(...a continuar...)






terça-feira, 18 de outubro de 2005

onde começa e termina o Rio Minho

o Rio Minho nasce na Serra de Meira, na Província Galega de Lugo, numa charca borbulhante onde crescem nenúfares e outras plantas palustres. A essa charca lhe chamam "Fontemiña" ou Fonteminha", ou "Fonminha", que quer dizer fonte ou nascente do Minho. fazendo o caminho que lhe foi destinado, cumpre o Rio Minho a sua sina aos pés de Santa Tecla e de Caminha, que quer dizer "Bucca Minia", "a Foz do Minho". ou seja, como qualquer rio digno desse nome, o Rio Minho nasce na "fonte" e desagua na "foz". nem mais, nem menos. que mais queriam?

O Topónimo "Ponte"


sendo um elemento arquitectónico essencial para assegurar a travessia de rios e ribeiros, a ponte constituiu desde sempre um fator de libertação e de fascínio, símbolo de outras travessias do destino do Homem. Em Roma, o "pontifex", o "fazedor de pontes", o detentor das chaves que lhe davam acesso, era, tal como Pedro o apóstolo, o sacerdote dos sacerdotes, hoje em dia representado pelo Papa.
no tempo em que se pôs o nome a todas as coisas e lugares, as pontes eram por si só suficientemente importantes para designar o sítio onde as construiam.
este topónimo tem a característica de assinalar locais de passagem de antigas linhas viárias.
consoante a língua que lhes pôs o nome e as particularidades arquitectónicas, históricas ou geográficas, assim ficaram na toponímia registadas como :

Alcântara

Alcantarilha (espécie de "ponte ao contrário", é uma construção que permite o cruzamento de um canal por baixo de uma estrada)

As Pontes (Gz.)
Pontão
Ponte Barxas (Gz.)
Pontecesures (Gz.)
Ponte da Barca
Ponte da Misarela
Ponte da Mucela
Ponte das Três Entradas
Ponte de Lima
Ponte de Prado
Ponte de Serves
Ponte do Bico

Ponte do Boitaca - do nome do arquitecto francês Boitac que a terá construído e que construiu, ali ao pé, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória ou da Batalha

Ponte dos Mouros
Pontes
Pontevedra ou Ponte Vedra (Gz.)
Pontével
Ponte Velha - o mesmo que "Ponte Vedra", mas linguisticamente mais nova
Pontinha

este tópico foi retomado posteriormente, aqui.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

A Senhora Mãe na Toponimia

encontramo-la por toda a parte. no Minho, nas Beiras, na Região Saloia, no Alentejo, enfim: é a nossa Mãe. chamam-lhe a manifestação de um antiquíssimo "culto da fertilidade". nome por nome, prefiro o de Senhora Mãe.
aparece sob as formas que mais bem traduzem as fases vitais da Terra e da Mulher, que ciclicamente se repetem, permitindo os rituais e as liturgias que fazem a ponte entre o irracional e a razão, dando sentido à vida, ao prazer, ao sofrimento, à doença e à morte.
"Senhora das Dores", "Senhora dos Prazeres", "Senhora do Ó", "Senhora da Hora", "Senhora do Leite", "Senhora da Saúde", "Senhora da Agonia", "Senhora da Boa Morte".
sob outras invocações, a Senhora Mãe aparece onde brota a fonte da vida, a água, ou onde a vida começa a explodir em mil e uma formas. é a "Senhora da Peneda", a "Senhora da Abadia", a "Senhora do Porto d'Ave".
ver mais aqui.


sábado, 15 de outubro de 2005

O culto das "cruzes", encruzilhadas ou cruzamentos

no tempo em que devagar se ia longe, os caminhos da terra confundiam-se com os caminhos da alma. o mundo exterior era uma representação simbólica do mundo interior. viajar era contemplar, de uma só vez, a luz exterior e a luz interior, as sombras de fora e as sombras de dentro, os monstros da terra e os monstros da alma. e a alma em viagem tinha consigo a representação do mundo superior, o mundo do além em movimento, a companhia dos que viveram e partiram primeiro, a gritaria de deuses e demónios, das almas em transe, dos espíritos em paz ou em desgraça. por isso tinha tanta importância uma encruzilhada, um encontro ou um cruzamento.
estavam assinalados, autênticos sinais de trânsito de meditação e demora. umas "alminhas", um "cruzeiro", uma "capela", com velinhas ardendo noite e dia, um montão de pedras que crescia a cada novo passante. Eram os "Cruzes", "Encontros", "Encruzilhadas", "Entroncamentos", na estrada e na vida. levou algum tempo a perceber que as "Cruzes" se referiam ao "Cruze" (cruzamento) e não à "Cruz" que as assinala. mas é "Cruze" , "Cruce", e não "Cruz" o que encontramos no resto da Península.

a população anterior à chegada dos romanos marcava os cruzamentos com montinhos de pedra com que sinalizavam as direcções principais. esses montículos tinham tamém uma função religiosa. os romanos mantiveram essa função, dedicando, pelo menos os mais importantes "cruzes", à invocação de Mercúrio. na época cristã tiveram direito a uma cruz ou a umas "alminhas". isto parece bem representado num cruzamento perto de Coimbra, chamado "Cruz de Morouços". nesse cruzamento há uma capelinha, vestígio desse culto ancestral. e o nome "Morouços" evoca a presença desse "montinho de pedras" que assinalava o "cruze".

Vemos por aí:

Cruz,
Cruz d'Argola,
Cruz da Armada,
Cruz da Légua,
Cruz da Pedra,
Cruz das Almas (Br.) - espécie de tautologia, já que as "almas" assinalam cruzamentos
Cruz da Toita,
Cruz de Celas,
Cruz de Chão do Bispo

Cruz de Morouços - tal como "Cruz das Almas, é uma espécie de tautologia, já que os "marouços", "moroiços" ou "morouços", como acima se disse, eram a forma pagã de reverenciar os cruzamentos ou encruzilhadas, antes das "almas" ou "alminhas"

Cruz do Pau
Cruze (Gz.)
Cruzeiro,
Cruzes
Cruzinha
Encontro
Encruzilhada
Entroncamento
Entroncamento de Poiares
Santiago da Cruz

além destes, assume uma especial importância o topónimo "Coruche", fruto de um circunstancialismo fonético-dialectal específico. a palavra "Cruze", pronunciada C.ruje" (ou "Queruxe"), evoluiu facilmente para "Coruche" - que também constitui um antiquissimo cruzamento de estradas. relacionados com "Coruche" estarão os topónimos "Corucho", "Coruxeira" (Galiza) e "Corujeira".

em todos estes lugares antigos pontifica um cruzamento, uma encruzilhada ou um entroncamento de caminhos ou de estradas, ainda actuais ou já em desuso.



quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Parece mas não é

alguns topónimos acabam, com o tempo, por tomar formas irreconhecíveis relativamente às suas origens. alguns são mesmo muito curiosos. é claro que nenhum deles significa aquilo que parece. poderei oferecer o verdadeiro significado caso a caso, se mo solicitarem...e eu souber, é claro!

aqui vai uma listinha engraçada:

A Esfolada (Gz.)
A Frangueira (Gz.)
Aldeia das Dez (Pt.)
Alto da Maria Dorme (Pt.)
Alto do Mariola (Pt.)
Ana Loura (Pt.)
Assim Chamado (Pt.)
A-Ver-O-Mar (Pt.) - mais correcto "Aver-o-Mar"
Barranco de Mata Filhos" (Pt.)
Bem-da-Fé (Pt.) - mais correcto "Bendafé"
Boa Farinha (Pt.)
Bom Velho de Baixo (Pt.)
Bom Velho de Cima (Pt.)
Cabecinha de Rei (Pt.)
Cabeço de Domingos Moiro (Pt.)
Carne Assada (Pt.)
Carvalhal da Mulher (Pt.)
Cid Almeida (Pt.)
Entre-as-Cabeças (Pt.)
Fonte da Figueira Doida (Pt.)
Fonte da Pulga (Pt.)
Jerusalém do Romeu (Pt.)
Laracha (Gz.)
Lôgo de Deus (Pt.)
Maçãs de D. Maria (Pt.)
Mata-Mouros (Pt.)
Meia Martins (Pt.)
O Brincadoiro (Gz.)
Ovelha (Pt.) - é hidrónimo
Ovelhinha (Pt.) - é hidrónimo
Pai Água(Pt.) - "pai", do lat. "pagii", plural de "pagus", aldeia
Pai das Donas (Pt.)
Pai do Vento (Pt.)
Palas de Rei (Gz.)
Pé d' Homem (Pt.)
Perna Sêca (Pt.) - aqui, "perna" é hidrónimo
Portela da Cobiça (Pt.) - "cobiça" está por "cabeça"
Rojão Grande (Pt.)
Soneira (Gz.)
S. Pedro Dias (Pt.)
Vale de Mulheres (Pt.)
Vale do Homem (Pt.)
Várzea do Homem (Pt.)
Viana do Bolo (Gz.)
Vilar de Ossos (Pt.)
Vitorino das Donas (Pt.)

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Mouros e Mouras na toponímia do espaço linguístico galego-português

aparentemente, a palavra "mouro"/ "moura", de etimologia grega, significa "negro"/"negra". refere-se ao conjunto de grupos étnicos da África Setentrional que entraram na Península Ibérica no contexto do Império Árabe. conquistaram a simpatia dos povos autótones, ao ponto de terem passado a constituir uma referência fundacional, civilizacional e afetiva. tudo o que é antigo é dos mouros, desde a Pré-História até aos reinos suevo e visigodo, passando pelos séculos da pax romana. nada disso conta em termos de passado. a Criação do Mundo aqui é obra dos Mouros. o que antes eram "As Colunas de Hércules", e o que elas representavam, desapareceu da memória da Civilização. o mundo começa agora com Táriq, e as Colunas que eram de Hércules ganharam o nome de Djébel-al-Táriq. isto é, O Rochedo de Táriq, "Gibraltar" - que se pronunciaria Gibraltàr se não fosse a falta de jeito dos ingleses para pronunciar corretamente seja o que for e a nossa mania bacoca de os imitar.

e no que toca ao afeto, à irracionalidade, ao encantamento, estamos conversados: são as Mouras encantadas, que se perderam de encantos por estas regiões, quase sempre reféns de uma pedra, de uma penha ou de uma gruta.

mas os topónimos "Almourol" (al-Mourol), "Marão", "Mora", "Moro", "Morón" (Esp.), "Morouços", "Môrro", "Morreira", "Moura", "Moura da Serra" (um curioso pleonasmo), "Moura Morta", "Mourão", "Mouro", "Mouroal" (quantid.), "Mouronhe", "Mourosas" (adjet.?), apesar das aparências e de lendas associadas, não têm qualquer ligação com essas etnias. estes topónimos tenhem até a particularidade de surgirem em locais onde a presença continuada de mouros é improvável, como as Astúrias, Galiza e norte de Portugal. estão, antes, associados a pedras e locais montanhosos e ricos em penedia (raiz Mor-, "penedia"), que em casos como "Marão" e outros poderia traduzir-se, noutra matriz linguística, por "Penhas", "Peneda" e noutra ainda por "Canda", "Candeeiros", "Candemil", "Candosa".



sábado, 8 de outubro de 2005

As "Igrejas" no espaço geográfico, histórico e linguístico da Galiza e de Portugal

Nos primeiros séculos da cristianização peninsular, a presença de uma igreja era uma marca de tal modo importante e rara no espaço geográfico, histórico e cultural que merecia diferenciá-lo toponimicamente. Assim, os topónimos que designam igreja surgem dispersos no território português de acordo com a densidade da sua distribuição na época em que cada topónimo foi formado, com a sua dimensão arquitectónica e com a dominante linguística em cada momento histórico.
a presença de uma igreja pode estar estratificada na toponímia sob as formas arábicas:
Alcanena
Alcanizes (na Região Leonesa: "Alcañices")
Alcainça
Alcains
Alcainz (Gz.);
sob as formas românicas
Gricha,
Grixa
Grijó e
Irijó
(estas duas derivadas do diminut. lat. ecclesiola, pequena ecclesia);
ou, finalmente, sob formas linguísticas mais recentes como
Ereija
Igreja
Igrejinha.

sob a forma "Beselga", encontramos lugares onde esta(va) implantada uma basílica - étimo grego que significava, à letra, "casa do rei", mais tarde aplicado a certa categoria de igrejas.

(direitos reservados. citação obrigatória do autor e do blogue)

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

O topónimo "aldeia" no Brasil

há pelo Nordeste topónimos que se referem à Aldeia e seus diminutivos, uns em português do Séc. XVI, outros em tupi-guarani e outros ainda mistos. é o caso de "Taba", "Tabainha", "Tabapuã" (tupi-guar.: taba, aldeia + puã, alta, elevada) e "Aldeota". traduzem o padrão de povoamento aborígene, em pequenas aldeias solidárias e auto-suficientes.
de "Taba", aldeia, deriva "Tapajós" - rio que toma seu nome da tribo Tapajós, que significa "aldeões".

O Topónimo "Ourrieta"

é um topónimo anterior ao domínio romano, de raiz linguística basca (pré-euskera), aplicável a terras de vária natureza, geralmente terras agrícolas férteis ou terrenos de pastorícia. "Ourrieta" designa um pedaço de terra. pode ser terra úmida, terra de pastos, concha ou conca arável, ou um vale. talvez a tradução mais imediata em variantes românicas seja "conca", "pequeno vale" ou "valeiro". este topónimo é muito comum na Região Leonesa e em Portugal, na zona do chamado "mirandês" - na realidade, um grupo de dialectos do asture-leonês, a vieya fala ou bable.
surge sob diversas formas, radicais ou compostas, diminutivos e aumentativos:

Cabeço da Urreta
Orreta
Orro
Orrôs
Ourrieta
Reta l Toro
Urra
Urreiro
Urrelsesto
Urreltouro
Urreta
Urreta Águia
Urreta da Caseta
Urreta da Nalha
Urreta da Raia
Urreta da Velha
Urreta das Vozes
Urreta de Dentro
Urreta do Fresno
Urreta dos Lagares
Urreta Faleto
Urreta Ferreira
Urreta Formosa
Urreta Longa
Urreta l Poço
Urretas Assenhas
Urreta Vinhó
Urretona
Urrieta (León)
Urrita
Urrita do Moinho
Urrita Égua
Urro
Urros - topónimo tido por euskera
Urrós

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Espadacinta

"Espadacinta" é um topónimo de um grupo que inclui "Espada", "Espadanal", "Espadanedo", "Espadaneira", "Porto da "Espada", "Freixo de Espadacinta".
"Espadacinta" fica situada na confluência dos Rios Huebra e Douro, na Região das "Arribas do Douro" ("Arribes del Duero"), Parque Natural ibérico conhecido pelas gargantas abissais que constituem a fronteira entre o Distrito de Bragança, em Portugal, e a Província de Salamanca, em Espanha. É de supor que essas gargantas profundas e estreitas justifiquem a segunda parte do topónimo ("cinta": "apertada").
Quanto a "Espada", o seu significado ainda não é claro, embora se possa admitir que esteja relacionado com um terreno bravio e úmido.
"Espadanal", topónimo associado, significa um lugar onde abunda "espadana", tal como "Espadaneira". E, por sua vez, espadana ("a que cresce na espada"?) é uma planta herbácea palustre. Mas "espadana" também pode significar "veio de água" - onde se desenvolvem as plantas palustres. Pode ainda dar algum contributo para deslindar o significado de "espada" a estirpe de vinha conhecida por "espadeira" (pronunc. "espàdeira").
A ligação de "Espadacinta" a Portugal faz-se por "Freixo de Espadacinta", antigamente chamada apenas "Freixo", mais tarde "Freixo de Espadacinta" e, mais recentemente, "Freixo-de-Espada-à-Cinta".
Não há fundamento para a grafia "Espada-à-Cinta" nem, consequentemente, para as historietas com ela relacionadas. Mas que são cavalheirescas e patuscas lá isso são.